Buscar
Voltar à home
Ensaios
Rede
Faça parte
Publicações
Loja
Quem somos
Entre em contato
Início
Ver ensaio
A autora

Fenda

Patricia Gouvêa

Patricia Gouvêa3

No âmbito de diversas culturas, a capacidade de transmutar a morte é identificada com a reprodução e em rituais de fertilidade, e é contada em mitologias que chegaram até nós, como a história da deusa Hel. Na mitologia nórdica, Hel é a deusa da vida e da morte. Ensina aos mortos como viver da frente para trás. Eles vão se tornando mais jovens, mais jovens, até que estão prontos para renascer e retornar à vida. A recuperação do divino tem lugar nas trevas de Hel.
Entre 2003 e 2006 usei filmes vencidos, uma velha Rolleiflex, a luz disponível na minha sala e convidei pela primeira vez oficialmente Francesca Woodman, Clarice Lispector e Marguerite Duras a sentarem-se em meu sofá, as três juntas, como minhas interlocutoras (o mundo contemporâneo as chamaria de coachs?). O território da fotografia como linguagem-suporte reforçava a proposta da série, se levarmos em consideração esta noção “primeira” de tempo congelado, morte do fluxo que o fotográfico carregava na época. Fenda instaurava o desejo de transformar este suporte em pulsação de vida. Um desejo que devotava para mim mesma, tendo meu corpo como campo de experimentações.
Auto-censurado e banido ao meu gaveteiro de aço, esses negativos ali ficaram por muitos anos. A fenda continuou reverberando nos meus cadernos e nos processos terapêuticos e espirituais pelos quais passei em todos estes anos, incluindo uma experiência de quase-morte ao parir minha única filha, Diana e ter meu corpo todo furado e cortado. Em 2019, quase quinze anos depois de interromper a feitura de Fenda, fui desafiada a apresentar este trabalho na íntegra pela primeira vez, numa exposição.
Se abraçarmos a máxima de que a fotografia é a escrita com a luz, talvez Fenda tenha sido a melhor forma que encontrei para me escrever e inventar um íntimo partilhado em imagens preto-e-branco, meu texto-imagem como órgão vital da vida, minha-nossa dor como espaço de ativação, a escrita de si e a dor como atos políticos enfim.

Patricia Gouvêa1
Patricia Gouvêa2
Patricia Gouvêa3
Patricia Gouvêa4
Patricia Gouvêa5
Patricia Gouvêa6
Patricia Gouvêa7
Patricia Gouvêa8
Patricia Gouvêa9
Patricia Gouvêa10
Patricia Gouvêa11
Patricia Gouvêa12
Patricia Gouvêa13
Patricia Gouvêa14
Patricia Gouvêa15
Patricia_Gouvea.jpg
Patricia Gouvêa
Niterói – RJ
Artista visual  Fotógrafa  Pesquisadora
@patgouvea