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A autora

Eu me acostumei com sua presença

Bruna Dias

Eu me acostumei com sua presença

Nunca foi fácil, não é simples. Há dias que me sinto impaciente, frustrada, irritada, desejando que você vá embora, mesmo sabendo que seguiremos juntas por…
Bom, por um bom tempo ainda.
Eu me acostumei com sua presença.
Lembro a primeira vez que ouvi seu nome sendo mencionado em relação a mim, e o quão eu relutei e teimei em não te reconhecer e legitimar.
Eu estava tão assustada, lembra?
E não foi fácil, naquele dia, naquela sala, daquele jeito, te ver invadindo aquele espaço que eu achava que era só meu, mas que no final sempre foi seu também.
É, eu me acostumei com sua presença.
Em alguns momentos chego até a sentir sua falta quando você fica mais silenciosa, de tão acostumada que já me sinto com sua voz no meu ouvido, e do tanto que eu me perco em saber onde eu termino e onde você começa.
E eu me acostumei com sua presença.
Há períodos que eu consigo me achar até mais bonita quando você tá por perto, mas ai quando você se afasta de novo eu entendo que é só o seu poder de me enganar, distorcer as coisas, vendar meus olhos e meus sentidos, e que somente quando você se vai é que eu consigo enxergar a realidade.
Mas eu me acostumei com sua presença.
Você que me tira a confiança, o sono, os sonhos.
Você que me apareceu tão cedo, quando eu ainda não entendia nada da vida, mas que me fez acreditar que aquele vazio era a melhor companhia que eu conseguiria ter.
Eu me acostumei com sua presença.
E vou tentando me equilibrar a cada nova ausência-presença, a cada novo momento e sensação que você me traz, e ainda mais a ilusão de controle que você me passa, quando na verdade quem controla tudo é você.
Eu me acostumei com sua presença.
Estou a semanas com dores, sem conseguir sair da cama, sem acreditar que as coisas podem melhorar, mas aí você vem e sussurra baixinho no meu ouvido que a cama é o melhor lugar e as dores nunca cessarão, e eu continuo ali, simplesmente, por falta de coragem de resistir.
É que eu me acostumei com sua presença.
E vou tentando me sustentar como posso, pelo caminho mais seguro, sem me arriscar muito porque você sempre me diz que eu vou me machucar. Mas quem me machuca mais do que você?
E eu me acostumei com sua presença.
Você que é tudo o que eu evito de viver, e que faz inscrições na minha pele com a desculpa de que eu mereço isso. Mas eu mereço ser feliz, sabe?
Eu me acostumei com sua presença.
E apesar de tudo, sempre acabo te ouvindo quando você me pede para afastar as pessoas e me isolar, porque elas não me entenderão ou porque eu não vou passar de um peso na vida delas. Mas o que mais pesa é esse seu silêncio ensurdecedor.
Eu me acostumei com sua presença.
E as vezes custo a acreditar que ainda existe algo de bom em mim, porque a parte que eu vejo com suas marcas são sempre tão feias e doloridas.
É que eu me acostumei com sua presença.
Mas mesmo acostumada, ainda espero o dia que você não mais retornará, e eu poderei cuidar da casa e do coração em paz.

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Bruna Dias
Bruna Dias
João Pessoa – PB
Diretora de fotografia  Fotógrafa
@olhosnegross